"Mais do que ser primeiro, herói é quem sabe dar-se inteiro e dentro de si mesmo ir mais além."

TransJordanian em Bicicleta – AGO/SET09

Se tivesse que definir o Reino da Jordânia numa palavra, diria “WELCOME”. Se tivesse de o definir com um som, diria “BUZINÃO”. E se tivesse de adjectivar o seu modo de vida, diria “CAÓTICO”.

 

Na verdade, nunca em nenhum outro sítio me desejaram tantas vezes as boas-vindas, fazendo o visitante sentir-te quase em casa… No entanto, as diferenças entre o nosso modo de vida e o deles, são no mínimo abissais. Mas estranhamente, isso não me chocou…

 

Ao mesmo tempo, constatar que havia chegado a um país muçulmano no 2º dia do Ramadão foi uma experiência inolvidável. Compreendi as suas implicações e a sua importância para o povo local. Respeitei. E em troca também me senti respeitada. Nenhum problema, nenhum choque, nenhum atrito, apenas alguma cautela e discrição, e era assim possível não jejuar mas também não ferir susceptibilidades.

 

Na downtown de Amman senti-me noutro planeta… Ali não há turistas; ali não há cafés ou esplanadas, jardins ou parques; não há montras a não ser de rua… Só há cores e cheiros, muitos cheiros de especiarias; ruído de carros e buzinas, uma panóplia de artigos tipicamente árabes à venda, túnicas, turbantes, sapatos e sandálias marcadamente árabes…

Senti-me autenticamente o Gonçalo Cadilhe numa qualquer cidade ou lugarejo deste mundo… E que bem que sabe!

 

 “É só Arafats por todo o lado”! Foi o que me veio à cabeça mal comecei a observar os transeuntes… Era inevitável recordar o antigo dirigente da OLP e o turbante que costumava usar, pois aqueles eram iguaizinhos!

 

Os jordanos não dão um passo sem carro. E o carro é um mostruário de decorações fantásticas, um verdadeiro “tuning” ao estilo árabe!

 

Em terra jordana, uma bicicleta é um objecto invulgar. As poucas que vi nas mãos de algumas crianças espelhavam o estilo que imprimem aos carros e a tudo o que usam – folclórico! Desde franjinhas nos punhos e nos selins, às palhetas todas às cores nos raios, era ver e sorrir perante o colorido e o orgulho com que as montavam!

 

O que mais impressionava era a ânsia das crianças que chamavam logo todos os amigos e vinham a correr até à beira da estrada para ver passar tão estranhos seres em tão estranhos veículos! “Hello! Welcome! Where are you from?”

 

Soube-me bem sentir o apreço que exprimem quando ouvem o nome de Portugal. Soube bem os condutores oferecerem genuinamente boleia, deviam estar a pensar algo do género “coitados, não têm carro e vão de bicicleta com este calor”, ou “estes são mesmo turistas loucos”. Como explicar a estas almas bondosas que tínhamos prazer em andar de bicicleta e fazíamos questão disso?? E que dizer dos convites para repousarmos com eles debaixo da carroçaria de um velho camião Mercedes 911 dos anos 60??? À falta de sombra de árvores, deitavam-se à sombra do próprio camião! “Stop, come, have a rest”!

 

1º Dia: Madaba – Dead Sea/ Mujib Reserve (65 kms)

 

Primeira abordagem à geografia jordana, primeiro contacto com a minha fiel companheira de viagem – a minha “pasteleira” – a cumprir plenamente o objectivo de me levar a passear… devagar. Nas primeiras descidas alucinantes, o devagar tornou-se rápido demais para gozar do panorama de insondáveis e imperscrutáveis montanhas rugosas e áridas, a perder de vista. Travões? Para quê? Não fazem falta… É descer, descer, até uma altitude negativa…

 

Os chalets da Mujib Reserve, à beira do Mar Morto, 400mts abaixo do nível do mar, exibem convidativas camas de rede cá fora e uma sombra apetecível… Mas aquele mar supostamente morto é mais chamativo… O branco das pedras à sua beira prova o teor de salinidade que afasta dali qualquer forma de vida. Menos nós… Mergulhar não é possível… Refrescar muito menos… A água é quente, obriga qualquer corpo a flutuar, tenho a sensação de entrar num imenso caldeirão de sopa quente com azeite q.b. – sem hortaliça!

 

Tirar o sal do corpo também não é possível. A água de qualquer torneira sai a escaldar, muito mais do que a água daquela espécie de lago imenso a que se chama “mar”, mas cuja origem está no lendário rio Jordão, este quase desilude de tão “raquítico”.

 

2º Dia: Dead Sea – El Karak (59 kms)

 

Nada fazia prever o que aí vinha; nada nos preparara para a terrível montanha que teríamos de subir, sob um calor abrasador, infestados de moscas que teimavam em pousar em qualquer ponto exposto do corpo, aos molhos, em cima do suor em bica que escorria por todo o lado, dificultando ainda mais a respiração. Parar para descansar não era possível, as moscas engolir-me-iam viva!

 

Há que continuar a subir em curvas e contra-curvas que estimo na ordem dos 18% a 20% de inclinação em muitos pontos. Nessa altura lembrei-me do “ataque à Torre” que tinha feito recentemente com alguns amigos… Que longe estavam de imaginar o meu “ataque” às torres daquele dia!

 

Ao lado, demasiado próximo, passavam carros, camiões e autocarros cheios de gente, com as habituais buzinadelas a zumbir-me nos ouvidos. Tal como as moscas…

 

Passada a parte pior, julguei ter uma alucinação quando vi uma máquina de bebidas que exibia o logo da PEPSI! E eu que vinha a sonhar com uma! Desejei, pedi e ela apareceu! The Secret in its best!

 

A El Karak cheguei em estado de depleção, hídrica e nutricional. E o habitual caos de qualquer cidade jordana desgastou-me ainda mais, irritou-me pela dificuldade de progredir mesmo em bicicleta, por entre buzinas, confusão, busca incessante de um supermercado para abastecer e outra busca quase infrutífera por um spot longe dos olhares muçulmanos para nos alimentarmos em pleno Ramadão.

 

Cumpriu-se uma ascensão desde os -380mts até aos +1000mts de altitude em pouco mais que 25kms.

 

3º Dia: El Karak – Dana Reserve (96 kms)

 

Saber que havia 96kms a percorrer, não equivale a saber com o que se conta… Não fora o farto jantar da véspera e a alvorada bem cedo de modo a aproveitar mais o fresco do dia, e não sei se teria sido possível percorrer os quase 30kms de subida até mais uma cidade caótica – Tafila. Pelo caminho, pensamentos variados assaltavam-me a mente: “será que a subida acaba já ali?”, “será que ali é a direito para aliviar um pouco a pressão e o peso?”, “será que a água vai chegar?”, “e a comida?”… O que nunca me assomou à mente foi a palavra desistir. Essa não existe no meu dicionário, o qual contempla em contrapartida palavras como “escarcéu”, “pérfido”, “irascível” e outras que tais!

 

Atingida Tafila, hometown de diversas anedotas entre os jordanos (tal qual nós contamos anedotas sobre alentejanos), esta revelou-se mais uma amostra do tão característico caos urbano a que já me habituara, mas que continuava a abominar. Ah, que bom que é subir, subir, subir, sem cidades para atravessar! Tafila não é bonita. Só de longe, fotografada na encosta. Mas bonita é a gente jordana, que no entanto naquele dia me reservou algumas surpresas menos boas, como ser vítima de alguns pequenos apedrejamentos de crianças e de uma tentativa de quase abalroamento propositado por parte de um camionista louco. Não guardo isso na memória. Prefiro conservar os imensos pontos positivos e demonstrações de apreço e simplicidade por parte do povo jordano.

 

As subidas não acabaram. Chegar perto de Dana, que alberga uma reserva natural muito famosa e é habitat de algumas espécies animais raras, revelava-se tão longínquo… A visão repentina do vale a que teríamos de descer até ao local da pernoite, era tão apelativa quanto era assustadora a ideia de que teríamos de fazer o mesmo percurso A SUBIR para sair daquele “buraco” no dia seguinte!

 

Que hotel tão agradável que fomos encontrar! Tinha tanto de simples quanto de acolhedor. Tipicamente frequentado por jovens mochileiros, não podia vir mais a propósito. Voltaríamos a cruzar-nos com alguns dos seus hóspedes em Petra e até em pleno deserto de Wadi Rum!

 

4º Dia: Dana – Wadi Musa/ Petra (73 kms)

 

Obrigada Senhor, por teres colocado à nossa disposição uma velha pick-up para nos trazer de volta desde o “buraco” até ao alto da subida/descida de Dana!

 

Poupadas assim algumas energias, era dia da aproximação a Petra.

 

Cerca de 25 kms da jornada eram off-road, para matar saudades. Foi a parte mais bonita do percurso. Ao longe a vista só alcançava montanhas, sempre áridas e altivas, o deserto ao fundo, o horizonte longínquo… Perdido no vale logo abaixo do trilho onde seguíamos, um acampamento de beduínos; no nosso trilho um casal de pastores guardava um rebanho de cabras; numa subida imensa e poeirenta, várias pick-ups folclóricas desciam enquanto nós pedalávamos a subir. Que contraste civilizacional…

 

A aproximação a Wadi Musa, a povoação adjacente a Petra, denunciava a importância do local, pois as estradas tornavam-se ainda melhores e mais largas (a Jordânia parece ter melhores estradas que Portugal!), bem iluminadas.

 

Entrámos em Wadi Musa, localidade situada numa grande descida a conduzir a Petra, a qual ficaria para o dia seguinte. Lojas muito mais orientadas para os turistas por todo o lado, mas nunca perdendo a identidade e caracterização árabes. Mais uma vez, a grande quantidade de barbearias surpreende…

 

5º Dia: Petra (on foot)

 

Petra é… Petra! Um assombro. De beleza, de grandiosidade, de incentivo à imaginação, numa tentativa de entender quem ali viveu e como. Quem ali viveu foram os Nabateus, antepassados dos beduínos, povo que ainda hoje vive em Petra ou nos arredores, a quem o Governo jordano ofereceu uma aldeia beduína. Mas há beduínos que quiseram permanecer em Petra. Estes oferecem serviços diversos aos turistas, desde passeios em dromedários ou em burros que os conduzem aos locais mais remotos de Petra, como por exemplo o Monastery, o mais imponente monumento de Petra, mais ainda que o Tesouro.

 

No Monastery tomei chá de menta enquanto observava os beduínos donos do local. Eram 3 sendo um de aparência absolutamente ocidental, e outro vestido a rigor com os trajos tradicionais, mas parecidíssimo com o Johnny Depp. Naquela hora que ali permanecemos alguma magia se criou…

 

Fomos quase os últimos a abandonar Petra, e isso diz muito…

 

Na noite seguinte, após umas breves pedaladas até Little Petra – por tantos esquecida ou ignorada, mas com tanto de sumptuoso quanto a “Grande Petra” – a MAGIA voltou…

 

A Magia voltou quando fomos convidados pelos 2 beduínos de Petra a jantar com eles, ao encontrá-los na mesma esplanada. A Magia instalou-se quando tantas histórias foram partilhadas. A Magia não nos abandonou quando fomos novamente convidados a acompanhá-los quando foram fumar “chicha” (cachimbo de água), um ritual masculino muçulmano, e fomos chamados de “friends”, não sendo permitido a nenhum “invited friend” pagar seja o que for.

 

Foi um serão de sabedoria não enciclopédica, de amizade e de autenticidade. Nunca esquecerei os dois beduínos que me ofereceram casa na sua gruta de Petra e me deram lições de vida. Bem hajam!

 

7º Dia: Wadi Musa – Wadi Rum (108 kms)

 

A distância não exprime a imensidão e a beleza intrínseca do deserto que iríamos atravessar. Nem tão pouco pressagia a amizade que iríamos fazer com o Atef, a escolta que tivemos nesse dia de deserto, que nos preparou um almoço quente vegetariano com meia dúzia de arbustos secos, tomates, cebolas, alho e azeite. E chá, claro.

 

O deserto é belo, cativante, enigmático. Assistir ao pôr-do-sol no deserto, um verdadeiro privilégio. A noite passada no acampamento do Salem no deserto de Rum permitiu-me ver aquilo que jamais esquecerei quando olhar para um céu estrelado: as estrelas no deserto brilham como em mais nenhum outro sítio do planeta.

 

8º Dia: Wadi Rum – Aqaba (30 kms)

 

A manhã preenchida com correrias nas dunas e um autêntico safari no anacrónico Land Cruiser do Salem, permitiu ter uma pequena percepção da imensidão arrebatadora do deserto.

 

Almoço simples e delicioso, e chá, preparados à sombra de uma grande parede de rocha em pleno deserto, na companhia do Atef e do Salem… que mais se pode querer? Momentos que o Atef quis imortalizar, oferecendo-me uma pequena pedra alaranjada, redonda e perfeita. Disse-me que quando quisesse regressar àquele local, quando estivesse sob pressão ou em dificuldades, para apertar a pedra na minha mão, e todos os problemas se iriam… Obrigada Atef! A pedra está aqui, à minha frente…

 

Tempo de pedalar até ao destino final da viagem em bicicleta, numa curta distância que nos separava da Região Económica Especial de Aqaba, no sul, um golfo partilhado pela Jordânia e por Israel (golfo de Aqaba/ Eilat).

 

EPÍLOGO:

 

Os 3 dias seguintes foram passados em Israel: Masada, Jerusalém e regresso à Jordânia.

 

De Jerusalém só me ocorre uma palavra: “overwhelming”… Mas estranhamente, não me impressiona tanto quanto a beleza e simplicidade do outro lado do Mar Morto…

 

Não sei se devido ao esmagador número de turistas presentes em qualquer local, por mais santo que ele fosse (como na Igreja do Santo Sepulcro); não sei se devido à mistura singular e quase aberrante (se pensarmos que podiam coexistir pacificamente…) de judeus, muçulmanos e cristãos paredes-meias; não sei se devido à antipatia e desconfiança dos israelitas; se devido à presença esmagadora de armas nas mãos de jovens militares, e ao apertado controlo policial; ou se devido à dificuldade em sair de Israel e voltar a entrar na Jordânia antes das fronteiras encerrarem por causa do Sabbath…

 

A verdade é que na Jordânia se ouve “welcome”, e em Israel subentende-se um “go away”… A verdade é que na Jordânia me senti em casa!

INSHALA!

 

 

One response

  1. Ricardo

    Lindo relato. Adorei cada palavra. Parece q estive lá n….Por isto vale mesmo a pena continuar.

    30/09/2009 às 20:48

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