"Mais do que ser primeiro, herói é quem sabe dar-se inteiro e dentro de si mesmo ir mais além."

TAÇA IBÉRICA DE TRIATLO LONGO – DUPLO OLÍMPICO DE SANABRIA (Santibañez de Vidriales)

E eis que concretizei o meu grande objectivo deste ano de 2009! Um objectivo que me custou muitas e muitas horas, semanas e meses de treino; que me custou “almoços” não almoçados, jantares fora de horas, treinos semi-nocturnos, horas de descanso sacrificadas, mas que me valeu a companhia de bons amigos durante muitos desses treinos!
 
Foi no passado Domingo, 13 de Setembro, na zona de Puebla de Sanabria (Galiza – Espanha), que teve lugar a final da Taça Ibérica de Triatlo Longo, ao mesmo tempo Taça de Espanha de Triatlo Longo. O “event center” foi na pequena localidade de Santibañez de Vidriales, a cerca de 120 kms de Bragança e a cerca de 80 kms do Lago de Sanabria, onde a prova teve o seu início.
 
Tinha traçado o objectivo pessoal de realizar absolutamente, até fim de Outubro de 2009, um Half-Ironman. Em Portugal não era possível fazê-lo, por falta de provas nessa distância e coincidentes com o desenvolvimento da minha preparação. Daí que isso me tenha levado até Espanha… E na falta de uma distância Half-Ironman propriamente dita, não tive outro remédio senão escolher a distância de DUPLO OLÍMPICO em que se desenrolaria a prova de Sanabria! 
 
E que prova! Enfrentar uma distância de 3 kms de natação, nadados no Lago de Sanabria, mais 82 kms de ciclismo num percurso de sobe e desce, mais 20 kms de corrida no final, não é pêra doce! Os 3 kms de natação que tem um Duplo Olímpico, são mais penalizantes (para quem não tem passado desportivo em natação) do que os 90 kms de ciclismo que tem um Half-Ironman! Os 1.1 kms de corrida que o meio Ironman tem a mais não são relevantes…
 
A zona envolvente do Lago de Sanabria apresentava-se muito, muito fria naquela manhã de Domingo! Temia enregelar dentro de água, mesmo com o fato de neoprene… Mas quando fui experimentar a água… ah, que sensação boa! A água estava temperada, a sensação era de quase morna, certamente em contraste com o frio do exterior. E que limpa! Já conhecia aquelas águas, não de nadar nelas, mas a sua limpidez e a beleza da envolvente, não se esquecem. O que também não se esquece são as bicicletas que por ali vi! Meu Deus, tantos milhares de euros, pertencentes à "crème de la crème" do Triatlo Longo português e espanhol! As bicicletas, na sua maioria de contra-relógio e equipadas com rodas de carbono, zuniam como moscas quando passavam perto!
 
1º Segmento – NATAÇÃO (3 kms)
 
Soou a buzina às 10h para as participantes femininas, e lá nos atirámos todas para a água! O “todas” eram… 16, entre 4 portuguesas e o restante contingente de espanholas! Descrevi o 1º triângulo de 1500 metros sem dificuldade, mas os últimos 500 metros não foram nada pacíficos porque não conseguia avistar a bóia nem as outras participantes, pois a direcção do sol dificultava essa operação, ofuscando a vista. Assim, entre paragens para ver por onde ia, e pequenas correcções de rota, demorei um pouco mais do que nos trajectos anteriores. A caminho para a 1ª bóia da 2ª volta apercebi-me de que os mais de 150 participantes masculinos também já haviam partido, pois de repente a calmaria da água do Lago foi perturbada como que por uma onda gigante! Aproximavam-se a braçadas largas e vigorosas os atletas masculinos, tendo passado por mim num ápice, como torpedos!
 
Da 1ª bóia (marca dos 2000mts) para a frente, os braços começaram a ficar algo mais fatigados, e depreendo que me tornei mais lenta, naturalmente… O pior foi quando cheguei à 2ª bóia , em que fui literalmente abalroada, engolida, pontapeada pelos atletas masculinos, que iam a todo o vapor, fresquinhos como alfaces! Lá me recompus, tendo retomado a minha prova porque me vi obrigada a parar de nadar por falta de espaço, e num lago tão grande!!!
 
Os últimos 500mts foram algo penosos, pois tive a tendência de inflectir para onde não devia, tendo continuamente que corrigir, nadando assim maior distância. Quando me aproximei da margem e me levantei, quase caía, de tão bamba que estava! Parecia que já não sabia andar!
 
Fui abrindo o fecho e tirando o fato à medida que subia até ao parque de transição. Ainda havia algumas bicicletas por ali… Vesti outro equipamento, bebi água e engoli uma banana à pressa e dirigi-me à saída do parque.
 
2º Segmento – CICLISMO (82 kms)
 
Montei na bicicleta e apressei-me a sair dali. Começou o longo percurso a que a organização chamara de “rompe-piernas”, que se caracterizava por um sobe e desce constante, não muito inclinado, mas massacrante pelas características ondulantes. Fui até ao km 48 sem poder aproveitar como podia e conseguia o segmento que me é mais favorável, ocupada a gerir uma desconfortável e inédita (nunca me tinha acontecido no ciclismo) dor de burro e um desconforto estomacal, a que finalmente resolvi pôr termo quando fiz uma “escala técnica” de uns instantes… A partir daí consegui recuperar algumas posições perdidas, e sentia-me claramente melhor.
 
A nível organizativo, os espanhóis não facilitaram: havia marcas a cada 10 kms, setas pintadas no pavimento, Guardia Civil em cada cruzamento ou rotunda, motos de acompanhamento e fiscalização, ambulâncias de emergência, abastecimentos líquidos em bidons, tendo só faltado mais abastecimento sólido, que só consistiu em bananas.
 
À chegada à povoação de Santibañez, fiz uma transição bastante rápida, tendo tido o cuidado de beber mais água e 1 gel.
 
3º Segmento – CORRIDA (20 kms)
 
Ai ai ai, agora é que vão ser elas… As pernas não queriam mexer mais… Mas lá as obriguei. Fui devagarinho, com uma ameaçadora dor no joelho, mas que não passou de uma ameaça, já quente desapareceu. Quente também estava o tempo àquela hora, cerca das 14h20, foi beber água em todos os abastecimentos, despejar garrafas pela cabeça abaixo, aproveitar cada esponja para refrescar o rosto, pois a desidratação estava a fazer-se notar. Sabia que tinha de ir devagar para garantir que chegava ao fim… Não pensei é que fosse tão devagar! Foi a corrida mais lenta da minha vida! Mas também nunca na minha vida tinha feito aquela sucessão de segmentos… Não se poderá comparar às horas e horas, e dias, de outras modalidades “radicais” que já me acostumei a suportar… Não, isto aqui é diferente! Uma pessoa tem de ser de FERRO para aguentar, e por isso na minha cabeça transformei a determinação em ferro!
 
Segui para a 2ª volta já muito desgastada, valendo-me 1 gel que trazia no bolso, mas nada neste mundo me iria fazer ficar pelo caminho! Foi penoso porque andei quase sempre sozinha, já não se avistava quase ninguém, só avistava rectas de terra e depois aquela visão da longa subida no final, em alcatrão, e que parecia não acabar nunca! Uffa, valeu-me o pessoal dos abastecimentos que dizia “venga campeona, que no falta nada, el fin esta ja ahí”!!!
 
Que bondade a deles! Mas é motivante, dá força e incentivo!
 
Cortada a meta nem queria acreditar! Tinha concretizado o sonho, tinha cumprido o meu Half-Ironman! “I had the time of my life…”
 
E agora???
 
Agora… está-se mesmo a ver que já só penso no IRONMAN!
 
Vais??? EU VOU!!!
 
Só eu sei porque não fico em casa!
 

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