"Mais do que ser primeiro, herói é quem sabe dar-se inteiro e dentro de si mesmo ir mais além."

Travessia Cabo da Roca-Santarém-Gavião-Alcains (360 kms)

O desafio surgiu de um companheiro natural de Alcains, evidentemente. E como nunca dizemos que não a um desafio deste calibre, de imediato se perfilou uma tropa de 7 bravos sem medo da chuva para cumprir o objectivo. Aos 7 permanentes, juntaram-se vários outros em trechos separados, uns no início, outros a meio, outros no fim.

 

No dia 23 de Maio de 2008, no Cabo da Roca, chovia bastante… E não mais parou de chover até ao final desta travessia louca feita em autonomia, embora houvesse de quando em vez umas abertas que nos faziam tirar os abafos e corta-ventos, para logo de seguida nos vermos obrigados a vesti-los novamente, tal era a instabilidade das condições climatéricas. O Guedes é que já não se continha e protestava o tempo todo por tantas vezes ter de vestir e despir, estava mesmo zangado!

 

A saída do Cabo da Roca logo entrou nuns trilhos que pareciam uma pista de trial para jipes artilhados, porque a lama era tanta que até a pé era difícil não escorregar. Começou logo ali a saga da lama, que imensas avarias mecânicas e desgaste no material nos haveriam de causar. Foi uma travessia extraordinariamente lucrativa para as lojas de bicicletas das quais éramos clientes! E para nós foi a ruína financeira…

 

Os primeiros kms foram, devido à lama e chuva, bastante lentos, e começámos logo a meio da manhã a ficar preocupados com os kms que ainda teríamos de percorrer até chegar ao destino daquele dia – Santarém. Ao entrarmos numa zona extremamente enlameada, tipo barro, nas proximidades do Cacém e ainda só com uns 20 kms andados, ao dar uma pedalada para tentar fazer a bicicleta mover-se para a frente e não ficar atolada, eis que se parte o drop-out da minha bicicleta! Que sorte, tenho um de reserva. Já foi suficientemente difícil separar o desviador da peça partida, tão difícil que nessa operação partiu-se também uma mola do desviador… Pronto, agora eram duas peças partidas! O Rui Antunes, que estava connosco para fazer só uns kms ali na zona da parte da manhã, de imediato se prontificou a arranjar-nos um desviador que tinha sobressalente, bastando apenas empurrar a bike até sua casa, pois morava ali perto. Mas como se não bastasse a 2ª avaria, o drop-out suplente que tinha não dava no meu quadro! Que balde de água fria… Nunca me havia lembrado de verificar se a referida peça que era do mesmo quadro mas do ano de 2004, era compatível com o novo quadro de 2007… E não era! Mas felizmente lembrámo-nos de contactar o Remi e a Lena, que também tinham pedalado connosco nessa manhã, sendo que o Remi me ia emprestar um drop-out da sua própria bicicleta, que era igual. Tiveram a amabilidade de vir da Margem Sul ao Cacém para nos desenrascar! Vivam os amigos!

 

Na garagem do Rui bastou então montar desviador e drop-out e tínhamos combinado com a restante “comitiva” que iríamos dali apanhar o comboio para a Azambuja, de onde seguiríamos então todos juntos novamente até Santarém. Foi indescritível a alegria deles e nossa quando nos voltámos a juntar! Também eles tinham tido a sua dose de lama e avarias, tendo inclusive sido necessário lubrificar uma caixa de direcção com manteiga num restaurante, à falta de outro lubrificante. A tropa manda desenrascar!

 

O resto do dia prosseguiu normalmente, a chuva fazendo as suas aparições, mas tudo a funcionar. Chegados a Santarém procurámos a pensão marcada, e ainda bem que o responsável estava avisado de que chegaríamos todos de bike e bastante sujos, não tendo levantado qualquer problema.

 

O dia seguinte iniciou-se com uma pequena visita ao jardim das Portas do Sol e as fotos da praxe, também em frente à Sé de Santarém, após o que demos início à jornada. Tendo a lama sido sempre uma constante, não vale a pena voltar a referi-la mais… De assinalar as bonitas e divertidas fotos que tirámos com vista para o castelo de Almourol, tendo para isso tido a prestimosa colaboração das autoridades, pois passava uma patrulha da GNR por ali que nos fez o obséquio de tirar a foto do grupo!

 

Em Abrantes tivemos de ir a uma loja de bicicletas, uma loja à moda antiga, mas onde foi possível substituir o prato médio já comatoso da bike do Pepe, tendo sido o Peregrino a fazer o serviço, tal a lassidão da referida loja.

 

Chegámos a Gavião não sem antes termos feito um duríssimo e longo trilho, sempre a empurrar por uma subida íngreme e estreita, à beira Tejo junto à Barragem da Ortiga. Era bonito, mas nós estávamos demasiado exaustos para apreciar devidamente. Na pensão do Gavião, por uma ninharia, trataram-nos como fidalgos, alojamento bom e jantar à maneira, com tudo a que tinha direito um pelotão de esfomeados mortos de frio e cansaço. Inclusive o pequeno-almoço do dia seguinte constaria de massa e ovos mexidos para quem quisesse! Que exagero, embora muitos camaradas estivessem convencidos dos benefícios de tal alarvidade…

 

No dia seguinte juntavam-se a nós mais uns bravos, e quando estávamos todos reunidos na enorme garagem cedida para guardarmos as “binas”, cai uma carga de água como ainda não tinha caído até então! Esperámos que abrandasse um pouco e tivemos de nos fazer ao caminho, sendo agora o grupo maior, pois tinham-se juntado a nós mais uns companheiros, e o Raptor até trazia peças sobressalentes e pastilhas de travão consoante os pedidos do material que já se tinha estragado devido à lama.

 

Foi correndo a manhã e na zona próxima das portas de Ródão começámos a apanhar grandes subidas, estilo corta-fogos, que não tínhamos outro remédio senão subir empurrando. Chegados a um grande alto, num pinhal, começa a chover torrencialmente e a bike do Bolacha apresenta um furo que tem de ser solucionado, sob pena de não poder fazer em segurança a grande descida que levava a Vila Velha de Ródão. Chovia torrencialmente, soprava um vento gelado, pelo que não havia necessidade de estarmos todos ali à espera. Ficaram o Peregrino e mais um companheiro a ajudar o Bolacha a trocar a câmara-de-ar, e todos os outros foram descendo com cautela, pois a descida era alucinante, com curvas e contracurvas e sulcos e regos de água pelo caminho. Era uma descida que fazia parte do percurso da TransPortugal, mas que normalmente era a subir! Chegados lá abaixo, passámos a ponte para nos encaminharmos para o restaurante já marcado onde se faria o reagrupamento e onde iríamos almoçar.

 

Os clientes do restaurante abriam muito os olhos, incrédulos perante aquela gente esquisita, encharcados, gelados e enlameados até ao pescoço! Fomos um de cada vez ao WC para tomarmos uma espécie de “banho” e então sim, almoçarmos mais confortáveis.

 

O sol fez uma aparição tímida após o almoço e seguimos já com o estômago mais composto e mais quente, nessa tarde que seria a última desta aventura. O ritmo teve de aumentar porque tínhamos até determinada hora para chegar a Alcains, onde o encarregado da escola secundária nos aguardava para o merecido banho quente. As más condições em que se encontravam as bicicletas estavam a dificultar o aumento da velocidade, só se ouviam travões a chiar e a actuar já no ferro dos discos. O Guedes ficava para trás e queixava-se de que tinha as rodas bastante travadas pelo que não conseguia ir mais depressa. Espicaçado pelos protestos e pelas bocas dos outros, de repente o Guedes desata a acelerar que nem um louco e desaparece da vista, e nunca mais ninguém o viu até Alcains, que já estava próximo! Foi o 1º a chegar à Escola, tendo mostrado a todos a sua fúria e do que era capaz! Grande Guedes!

 

Após o banho, estávamos todos convidados para ir jantar a casa dos pais do Did, mas nunca pensámos que iríamos ter uma recepção daquelas! Nunca vimos uma coisa assim, havia entradas, pratos diversos, sobremesas, tudo elevado a “n”, tanto em quantidade, como em qualidade e variedade! A mesma coisa se aplicava ao vinho caseiro que bebemos, e estamos convencidos que demos um grande rombo na adega do Sr. Did sénior! Aqui sim, fomos tratados que nem reis! Viva a família Valente, são uns valentões!!!

 

Depois de uma noite algo perturbada pelos exageros da ceia, dormida na casa da família, era dia do regresso de comboio até Oriente, com um ou 2 transbordos pelo meio, mas tendo sido uma viagem santa e boa para descansar.

 Nunca esqueceremos o acolhimento da família do Did. São momentos destes, bem como as peripécias da travessia, que ficarão para sempre gravados na nossa memória. BEM HAJAM!

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