"Mais do que ser primeiro, herói é quem sabe dar-se inteiro e dentro de si mesmo ir mais além."

CAMINHO DO NORTE (VARIANTE DA COSTA) A SANTIAGO EM BTT – 933kms

“Quando chegares ao cimo da montanha, continua a subir.”
(Provérbio chinês)
 
Dos vários Caminhos a Santiago de Compostela já percorridos, há algo no Caminho do Norte que não há em mais nenhum: o canto das gaivotas e a visão do mar! De facto, onde quer que estejamos, até à entrada na Galiza, temos as gaivotas por companhia, sempre a lembrar-nos que o mar está ali mesmo ao lado, mesmo que não o vejamos naquele instante.
 
É um Caminho muito bonito, marcado pelo contraste dos campos verdejantes versus mar, com a montanha sempre presente, especialmente nas Astúrias. É por isso um Caminho muito duro, em termos altimétricos o mais duro dos Caminhos de Santiago, suplantando mesmo o Caminho Francês, dado que atinge um acumulado de subidas na ordem dos 16.500 metros! Ao mesmo tempo, o percurso passa por estações balneares importantes que em pleno Agosto se encontravam repletas de veraneantes, o que se torna também muito insólito de ver num Caminho de Santiago.
 
A aventura para o nosso grupo de três ciclistas peregrinos começou com a viagem no Sud-Express até Hendaye, fim da linha e início oficial do Caminho do Norte, a pouco mais de 1 quilómetro da fronteira com Espanha. Como a viagem é feita na sua maior parte durante a noite e a chegada a Hendaye é de manhã cedo, era o ideal para começarmos logo a pedalar. Aqui fica o relato desta inesquecível aventura.
 
1a Etapa: Hendaye – Deba (82 km)
Desnível acumulado: 1620mts
 
O dia começou com algum atraso não planeado devido à chegada tardia do comboio, além do tempo perdido na montagem das bicicletas e colocação dos alforges, a somar ainda ao muito tempo que demorámos para encontrar as primeiras setas amarelas na cidade de Irún. Estes atrasos não seriam muito significativos, não fora termos planeado para este dia, cujo desnível era muito elevado, qualquer coisa como 94kms, até Monesterio de Zenarruza! No final não conseguimos cumprir esse objectivo e tivemos de pernoitar em Deba.
O dia foi muito quente e tivemos nesta 1ª etapa uma amostra do que nos aguardava nos seguintes: o verde da paisagem em contraste com o azul do mar; os parques de lazer e zonas de picnic disponíveis no campo, com todas as condições e asseio necessários; alguns caminhos onde era muito difícil transitar mesmo a pé; cidades muito complicadas de atravessar, com sinalização muito escassa e difícil de seguir com tanta gente a circular nos passeios, sendo pior de bicicleta, o que significou no final horas perdidas e dificultou o cumprimento do plano inicial.
Destaca-se neste primeiro dia – que começou com uma longa subida que não era suposto ser feita por ciclistas, pois era cheia de pedra e muito íngreme, até ao Santuário da Virgem de Guadalupe (onde dei a 1ª queda, justamente para cima de um montão de silvas!) – a passagem pela bela cidade de San Sebastián, com a sua imponente catedral, e a mais pequena Zarautz logo a seguir, ambas importantes estâncias balneares, repletas de banhistas. Também se registou, como veio a acontecer mais vezes, a necessidade de efectuar passagens de barco devido à existência de muitas rias pela costa fora, neste caso foi uma curta viagem de Pasajes de San Juan até Pasajes de San Pedro. Toda a beleza do País Basco começou a revelar-se aos nossos olhos.
 
2ª Etapa: Deba – Bilbao (92kms)
Desnível acumulado: 1800mts; Temperatura média: 28º; Temp. máxima: 37º
 
Após uma noite mal dormida no exíguo albergue de Deba, onde os peregrinos se amontoavam, começámos o dia bem cedo, empenhados em recuperar algum do atraso da véspera. Só conseguimos chegar ao local onde era suposto termos pernoitado perto das 11h, pois para lá chegar havia que percorrer um longo trilho na sua maior parte não ciclável e extremamente exigente, mesmo para pedestres. O calor também não ajudou. Neste dia, além de termos passado da província de Guipuzcoa para a Biscaia, passámos também por Gernika, onde tivemos muitos problemas para sair da cidade na direcção certa. Os mapas que tínhamos também não ajudaram pois os novos acessos construídos por motivo das auto-estradas, modificavam toda a periferia. Foi um dos dias mais duros do ponto de vista da altimetria, em particular em termos de transitabilidade de um troço (um trilho muito estreito, com calçada antiga pelo meio, extremamente íngreme e onde nunca foi possível montar). Melhor foi a chegada a Bilbao, que tinha um albergue privado bastante bom, esplendidamente sinalizado, de forma que mal entrámos na cidade seguimos directos as indicações até ao albergue.
 
3ª Etapa: Bilbao – Güemes (111kms)
Desnível acumulado: 1695mts; Temperatura média: 26º; Temp. máxima: 35º
 
A saída de Bilbao foi mais uma vez difícil e confusa. Achámos Bilbao desinteressante, muito poluída, com zonas menos centrais bastante degradadas e sujas. Não gostámos. Não é fácil sair destas cidades grandes, pois devido à sua dimensão e grandes zonas industriais em redor, nunca sabemos se já deixámos de facto a cidade ou não. Rumámos a Portugalete, dispostos  a recuperar hoje os quilómetros perdidos no 1º dia. Pouco depois de sairmos de Bilbao registou-se o 1º furo, que foi resolvido em pouco tempo. A saída de Portugalete revelou-se um mimo para os peregrinos ciclistas: o Caminho era por uma ciclovia com cerca de 11 kms até à Playa de la Arena, um luxo como nunca vimos, pois tinha faixas exclusivas para cada sentido, além de corredor anexo para pedestres, não havendo perigo para estes. Quase no final da dita ciclovia surge a 1ª avaria: um raio partido na roda traseira do Jorge. Esta limitação obrigou-nos a seguir bastante mais devagar, forçosamente por estrada pois a roda, derivado do peso dos alforges, não aguentaria o mau piso. Tínhamos de ir a uma loja de bicicletas reparar o referido raio que, segundo a nossa documentação, só existia em Castro Urdiales, a mais de 20kms dali. Como já estávamos em cima da hora espanhola do almoço e não nos queríamos sujeitar a esperar que a loja só voltasse a abrir cerca das 16h, enviámos um “ponta de lança” em alta velocidade (e o troço não era fácil pois havia subidas a 10%) para tentar chegar à loja antes do fecho. Tive a sorte de apanhar uma “boleia” de uns jovens que se deslocavam de bicicleta na povoação precedente e que me escoltaram até à porta da loja para não perder tempo à procura! Assim conseguimos impedir que a loja fechasse, tendo os meus companheiros chegado mais tarde.  O raio foi reparado e fizemos uma pausa para comer numa tasca onde abundavam cachecóis e bandeiras do Glorioso, pendurados no meio de presuntos e chouriços! Sentimo-nos em casa!
Neste dia ainda passámos por Laredo ao final da tarde e decidimos seguir mais um bocado até um albergue que ficava ligeiramente desviado do Caminho, em Güemes. Chegámos extenuados, pelas 20h30, o tempo arrefecera, mas tivemos uma recepção digna de nota pois o jantar ser-nos-ia oferecido, bem como a todos os peregrinos que lá estavam, pelo encarregado do albergue, uma refeição em comunidade.
 
4ª Etapa: Güemes – Comillas (92,7kms)
Desnível acumulado: 1255mts; Temperatura média: 19º; Temp. máxima: 27º
 
O dia amanheceu mais frio e a ameaçar chuva. Com o pequeno almoço oferecido pelo albergue (deixámos um donativo condizente), andámos até apanhar mais um bom pedaço de ciclovia que nos conduziria a uma travessia de cerca de 5kms de ferry entre Somo e Santander. Ainda não entendemos (assim como não entendemos setas noutros locais que nos conduziam a autênticas ratoeiras sem saída) como é que a sinalização encontrada à saída da ciclovia nos indicava a travessia de barco em frente, tendo nós andado imensos quilómetros sem que encontrássemos “embarcadero” nenhum… Perguntámos então e disseram-nos para seguir a estrada onde vínhamos inicialmente. Mais uns quilómetros e chegámos por fim a Somo, debaixo de uma chuva miudinha. Foi uma travessia de uns 15/20 minutos, sempre com Santander como pano de fundo, mostrando ser mais uma grande cidade. Desembarcámos e rumámos logo à saída da cidade, desta vez sem enganos. Parar para visitar uma cidade destas dimensões durante o Caminho de Santiago não é exequível, pois é como querer visitar Lisboa e Porto (juntos) numa hora ou duas!
Neste dia visitámos a povoação mais bonita de todo o Caminho, já na província da Cantábria: Santillana del Mar (que fica desviada do mar), uma aldeia-monumento em ambiente medieval, toda em pedra e com uma atmosfera muito característica. O Caminho continuava por prados verdejantes e logo nos acercámos mais da costa, gozando de um panorama fabuloso. A chuva voltou e ao fim da tarde choveu fortemente, coincidindo com a entrada num trilho que se tornou bastante enlameado devido a um tractor que ali andava a desbastar árvores, ocupando o trilho todo e impedindo a nossa passagem. Esperámos no meio da lama e só foi possível passar numa “barriga” que o trilho fazia mais à frente.
Embora estivesse algum frio e a chover, a aproximação a Comillas e a vila em si mostraram todo o seu esplendor, sendo feita de ruas estreitinhas e com uma praça central bastante bonita e concorrida. O albergue também dispunha de excelentes condições.
 
5ª Etapa: Comillas – Ribadesella (92,8kms)
Desnível acumulado: 1455mts; Temperatura média: 22º; Temp. máxima: 36º
 
A primeira cidade importante deste dia, a cerca de 10 kms de Comillas, seria San Vicente de la Barquera, permitindo o trilho que conduzia até lá desfrutar de uma vista muito bonita sobre a baía e a ponte. Havia uma subida inclinadíssima embora curta à saída da cidade, até ao Alto de Santiago. Mais à frente em Unquera, encontrámos os primeiros peregrinos ciclistas, um casal de jovens, ela italiana de Milão, ele espanhol. Iam muito carregados, com tenda, fogão e tudo mais. Penaram na subida que se seguia, à entrada no concelho de Ribadedeva, que já fica nas Astúrias.
Almoçámos em Llanes, mais uma importante estância balnear, e estivemos a admirar a arte de verter a sidra do alto de uma garrafa para um copo a meio metro de distância, mais abaixo.
A jornada decorreu sem problemas de maior e conseguimos ir ao encontro do plano inicial, que neste dia era suposto terminar em Ribadesella, onde não havia albergue de peregrinos mas ficámos muito bem alojados num albergue de juventude. Foi ao parquear a bicicleta neste albergue que descobri que o retentor do amortecedor da minha bicicleta tinha saído do lugar, o que na altura me pareceu problemático mas após contactos com Portugal, revelou-se um falso problema, bastando envolver a peça num plástico para impedir que as impurezas entrassem.
 
6ª Etapa: Ribadesella – Gijón (79,3km)
Desnível acumulado: 1740mts; Temperatura média: 21º; Temp. máxima: 32º
 
Desde a véspera que já avistávamos à nossa esquerda a respeitável cordilheira cantábrica e os Picos de Europa. Este contraste sui generis entre montanhas altíssimas do nosso lado esquerdo e o mar azul do nosso lado direito é algo que nos fica na memória, pelo seu carácter insólito e imponente.
A poucos quilómetros de Ribadesella, em San Esteban de Leces, fomos carimbar a credencial ao albergue local e aí travámos conhecimento com o Carlos Mauro e a Malú, um simpático casal brasileiro de ciclistas que se encontrava desde Julho a fazer Caminhos de Santiago, tendo já vindo desde Hospital de Órbigo, no Caminho Francês, onde exerceram voluntariado. Ficámos muito tempo à conversa com eles, trocando experiências, fotos e até pequenos vídeos! Voltámos a encontrá-los em Villaviciosa à hora do almoço e no dia seguinte pernoitámos no mesmo albergue em Soto de Luiña.
De destacar neste dia que em Villaviciosa era possível optar pelo Caminho Primitivo (via Oviedo e Lugo), ou pelo Caminho da Costa. Tínhamos planeado, e assim fizemos, seguir pela costa. Chegámos relativamente cedo a Gijón, mas foi muito difícil achar o albergue, que não era de peregrinos mas sim um albergue juvenil, e após muito perguntarmos e de ter sido necessário um desenho do trajecto a seguir na cidade, lá encontrámos o albergue, com um peregrino dinamarquês a nosso reboque e que andava à procura do mesmo! À chegada foi necessário trocar mais uma câmara de ar na bicicleta do Jorge, que andou o dia inteiro lentamente a perder ar.
 
7ª Etapa: Gijón – Soto de Luiña (78,4kms)
Desnível acumulado: 1360mts; Temperatura média: 22º; Temp. máxima: 30º
 
Sair de Gijón correu relativamente bem, pois já nos encontrávamos numa ponta da cidade. Os dois episódios do dia registaram-se na parte da tarde. O 1º aconteceu em Soto del Barco, onde avistámos o asturiano Fernando Alonso no seu Renault Spyder azul forte, tendo passado por 2 vezes junto a uma esplanada onde nos encontrávamos a lanchar. O 2º episódio foi uma descida vertiginosa por estrada onde devemos ter falhado uma seta, pois encontrámo-nos de repente na vila piscatória de Cudillero, de onde só é possível sair voltando para trás ou… de barco! Valeu a pena a visita pois era uma vila muito bonita, mas só de pensarmos na subida que teríamos de fazer… Fizemo-la e depois, dado o adiantado da hora, tivemos de encurtar o dia em 10kms e seguir por estrada pois com o engano perdêramos o norte às setas. Mas a estrada também não foi tarefa fácil, porque nos vimos de repente numa estrada nacional, com muito movimento e com viadutos altíssimos e longuíssimos, tornando-se algo perigoso seguir numa bicicleta. Chegámos mesmo a ter de passar por um viaduto em obras, por uma lateral cheia de máquinas e ferros espetados no piso. Não sei se a Guardia Civil não nos teria interpelado se nos tivesse visto por ali…
 
8ª Etapa: Soto de Luiña – Ribadeo (98,1kms)
Desnível acumulado: 1360mts; Temperatura média: 20º; Temp. máxima: 28º
 
Soto de Luiña ficava numa cova, o que significava começar o dia logo a subir. Esta etapa foi uma das mais complicadas em termos de sinalização, havia poucas indicações, ou estas estavam colocadas onde não era fácil serem vistas, tendo-nos acontecido também algo insólito: numa descida bastante longa e acentuada em asfalto, vimos umas setas amarelas num rail de protecção, que indicavam um caminho de terra à direita. Parámos de imediato e seguimos por lá. Continuámos a descer bem, por terra, e o caminho acabou… no mar! Não havia saída. Nem queríamos acreditar que as setas nos mandavam para ali! Ficámos um bom bocado a recuperar (do choque) e lá nos mentalizámos que tínhamos de subir aquilo tudo e voltar ao alcatrão. O caminho continuou confuso, basicamente por estrada, com alguns desvios para dentro de pequenas aldeias, para logo poucos metros à frente voltar a entrar na estrada principal.
Da parte da tarde enquanto lanchávamos num bar em La Caridad, deram-nos uma informação que nos conduziu a mais um erro crasso: parece que por motivo de obras na nova ponte que conduzia a Ribadeo, e que marcava justamente a entrada na Galiza, a circulação se encontrava interrompida a bicicletas e peões e para lá chegar havia uma ligação de barco em Figueras. Confiámos na informação, e de facto havia indicações na estrada a avisar das limitações ao tráfego. Chegámos ao embarcadouro onde era suposto apanharmos o barco e soubemos que não havia barco nenhum, que o mesmo existira em tempos anteriores à ponte e que a mesma era perfeitamente ciclável apesar das obras. Foi um balde de água fria, pois havíamos desperdiçado 2 ou 3 albergues antes com o intuito de pernoitarmos em Ribadeo. Voltar atrás para apanhar a ponte significava uma volta muito grande e a hora já ia adiantada. Felizmente houve um dono de uma embarcação que teve pena de nós e nos ofereceu boleia no seu barco que se encontrava à pesca, apenas tínhamos de esperar cerca de 1 hora. Sem problema! Levou-nos a nós e a mais umas peregrinas enganadas que também chegaram mortas de cansaço. E lá fomos de barco para o outro lado e assim entrámos na Galiza. Chegados ao albergue, descobrimos que estava cheio (e nós havíamos desperdiçado 3!) e tivemos de ir à procura de uma pensão.
 
9ª Etapa: Ribadeo – Vilalba (78kms)
Desnível acumulado: 2005mts; Temperatura média: 20º; Temp. máxima: 28º
 
O Caminho na Galiza está muito bem sinalizado. Além disso, temos indicação da distância que falta até Santiago, os ditos “puntos kilométricos” (PK). Rumámos a Gondán e entre duas localidades (San Martín Pequeño e San Martín Grande) encontrámos 3 peregrinos portugueses! Ou melhor, eles é que nos encontraram pois ao avistarem a bandeira portuguesa a esvoaçar ao passarmos por eles a grande velocidade, soltaram uma exclamação em Português e aí parámos para conversar um pouco com estes conterrâneos da melhor vila de Portugal – Sesimbra!
Neste dia há a realçar a passagem por Mondoñedo, com a sua bonita catedral com um órgão impressionante no interior, e depois o longo e massacrante caminho sempre a subir em estrada rural, rodeada de montanhas verdejantes e vacas pelas encostas, até Abadín, contabilizando 19kms de subida contínua, intercalando subidas ligeiras com outras bastante acentuadas, mas sempre em subida.
O restante percurso até Vilalba era relativamente plano e agradável, por entre bosques verdejantes, a compensar a dureza anterior, e aguardava-nos em Vilalba um dos melhores albergues do Caminho, logo à entrada da cidade.
 
10ª Etapa: Vilalba – Arzúa (88,6kms)
Desnível acumulado: 1505mts; Temperatura média: 21º; Temp. máxima: 29º
 
A 1ª parte do dia até Miraz era plana, sem dificuldades de maior. As subidas começaram a partir daí e até Sobrado dos Monxes, numa extensão de cerca de 14kms. Foram subidas apesar de tudo muito bonitas, algumas sobre grandes blocos de granito, outras sob pequenos bosques, mas foi longa e massacrante pelo isolamento, não havendo qualquer povoação em toda esta extensão nem local onde reabastecer. Sobrado dos Monxes tem, como o próprio nome indica, um mosteiro/seminário de monges cistercense activo, sendo um conjunto arquitectónico muito bonito. Fomos aí carimbar a credencial e quem nos fez esse obséquio foi um padre que se encontrava a tomar conta da recepção e onde funcionava uma pequena livraria e com quem tive um diálogo interessante, num “portunhol” já bastante aportuguesado pois o dito padre havia servido em Portugal e ali também se encontravam colocados religiosos portugueses.
Seguimos viagem para uns quilómetros mais à frente registarmos devidamente a passagem pelo marco dos 50kms para Santiago, na localidade com o insólito nome de Boimorto.
O nosso destino foi Arzúa, onde o Caminho do Norte entronca com o Caminho Francês, e isso torna-se logo evidente mesmo para os mais distraídos pois logo se começam a ver imensos peregrinos a passar, tanto a pé como de bicicleta. A oferta de albergues no Caminho Francês é imensa, pelo que ficámos num (privado) logo ao lado de um café onde íamos tomar uma bebida.
 
11ª Etapa: Arzúa – Santiago de Compostela (40,3kms)
Desnível acumulado: 780mts; Temperatura média: 21º; Temp. máxima: 34º
 
Eis-nos chegados ao último dia, que não fora inicialmente planeado mas sim derivado de atrasos acumulados ao longo dos dias. Foi uma etapa para descontrair, sem pressas ou dificuldades, onde já tudo nos era familiar pois 2 de nós já havíamos percorrido o Caminho Francês. Mas foi notório o aumento do número de peregrinos, desde 2005, num Caminho que é o mais mítico mas que está de algum modo a ser vítima de alguma massificação. Disse para mim mesma que era pouco provável voltar a fazer o Caminho Francês, onde se perde um pouco a sensação da aventura e do isolamento, pelo menos nesta parte final.
Chegámos a Santiago por volta da hora do almoço. Havia muita gente na Praça do Obradoiro, em frente à Catedral. Alguns peregrinos estão deitados no chão, a reviver a experiência ou a descansar; outros tiram fotos uns aos outros; outros conversam desenfreadamente, tal a riqueza da experiência; outros estão apenas de passagem. Fomos então levantar as nossas Compostelas, conferidas a quem percorrer o mínimo de 100kms a pé ou 200kms de bicicleta. Havíamos totalizado 933kms. Há sempre um misto de tristeza e alegria quando se chega a Santiago. Porque para muitos de nós o que interessa não é a chegada, mas sim a viagem. É com ela que aprendemos lições e vivemos momentos únicos, e é essa que recordaremos sempre com nostalgia e saudosismo.
 
(Filomena Gomes, Jorge Santos, João Amaral)
About these ads

9 respostas

  1. Espanhol

    Grande Aventura…Também quero…  : )Para a próxima vamos equipados com GPS…    ; )Bjs.Velezp.s. As fotos da Super estão um espectáculo…  : )

    01/10/2007 às 15:09

  2. Nuno Amaral

    Parabens, descrição arrepiante!
    Para quem está a preparar esta epopeia, a sua descrição é de fazer crescer "água na boca"…
    Obrigado por partilhar este magnifico relato.
    Um abraço
    Nuno

    14/01/2008 às 23:06

  3. Mario Cardoso

    Boa tarde,
    Efectivamente uma grande aventura que estou a preparar com outros amigos para fazermos este ano desde Gijon a Santiago em 4 dias. Será possivel dar-me algumas dicas sobre onde posso arranjar mapas detalhados?
    Obrigado e boas pedaladas!!

    16/01/2011 às 17:49

  4. Helder Nuno MArques Batista

    Bom dia.
    Irei fazer este ano o caminho do norte.
    A sua crónica foi-me muito útil.
    Obrigado.
    Helder Batista

    08/03/2012 às 12:00

  5. Adriano Pinto

    Olá boa noite – adorei a vossa descrição do Camino – este ano, em Junho, vou com um grupo de 4 amigos fazer esta grande aventura e o vosso testemunho é uma grande ajuda. O ano passado fizemos o Caminho Francês – espero que este seja tão bom ou melhor … Um Abraço e Obrigado. Adriano Pinto

    12/03/2012 às 23:00

  6. Olegário Sousa

    Olá Bom dia

    Adorei a descrição da aventura e concordo em pleno com o ultimo parágrafo: quando se chega á Praça do Obradoiro sente-se alegria mas também tristeza pois acabou a viagem e a aprendizagem que ela nos oferece!

    Já fiz o caminho Português duas vezes: uma em 2009 a partir de S. Pedro de Rates, em 3 dias mas achei pouco tempo, pedalei muito e vi pouco!

    Em 2011 fiz Porto – Santiago em 4 dias e já consegui ver mais, mas contínuo a achar que preciso de mais dias!

    Para vós votos de mais aventuras idênticas. Para os indecisos apenas isto: façam-se ao Caminõ!!!

    Olegário Sousa, 51 anos e betetista há 4.

    2012/06/19

    19/06/2012 às 12:11

  7. Luis Costeira

    Muito boa descrição do jornada… Se já estava com vontade de ir fiquei ainda com mais… Obrigado pela partiljha destes momentos…

    11/10/2012 às 14:58

Deixar uma resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

WordPress.com Logo

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Log Out / Modificar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Log Out / Modificar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Log Out / Modificar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Log Out / Modificar )

Connecting to %s

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.