"Mais do que ser primeiro, herói é quem sabe dar-se inteiro e dentro de si mesmo ir mais além."

A minha Aventura na TransPortugal GARMIN 07

A TransPortugal Garmin é uma prova única e original. Trata-se de uma competição desenrolada em auto-suficiência durante o tempo estabelecido para cada etapa, tendo como único meio de navegação um aparelho de GPS com os tracks devidamente carregados pela organização. Dito isto, é muito provável um participante menos competitivo andar muito tempo sozinho, também devido ao sistema de handicaps, facto com o qual algumas pessoas lidarão melhor que outras…
 
Não fui para a TransPortugal com o objectivo de competir. Ou melhor, fui para a TransPortugal com o objectivo de competir, sim, mas comigo mesma. Encarei desde o início a prova não como uma prova, mas como um teste a mim própria, um desafio único, e um meio de melhor conhecer os meus limites. Este espírito foi o que me guiou ao longo de toda a competição, em que não visava nenhuma marca significativa, mas tão somente terminar cada etapa, se possível dentro do tempo estabelecido. Essa era a minha meta, e a experiência vivida e as provações a que me submeteria seriam o meu melhor prémio. Tais expectativas foram largamente superadas.
Eis aqui o relato possível, necessariamente resumido, de uma das melhores experiências da minha vida!  
 
1ª Etapa: Bragança – Freixo de Espada à Cinta (143 Km; Desnível acumulado – 3750m; Fecho do Controlo de Chegada – 20h)
 
No briefing da prova todos havíamos sido avisados de que esta etapa era a mais difícil, e que quem conseguisse ultrapassá-la teria já passado pelo pior. Fomos assim aconselhados a “ir com calma”, conselho que eu tencionava seguir, não só neste primeiro dia como em todos os outros.
O dia e a prova iniciaram-se às 7h22 com a partida do primeiro atleta, em função do seu handicap de idade, o americano Cal Burgart, participante já assíduo na TransPortugal. Aos atletas masculinos com handicap elevado seguiram-se as atletas do sexo feminino, tendo a minha partida sido às 8h01. Um minutos antes saíra a americana Carol Silvera, e uns instantes depois a também americana Hillary Harrison, depois seguida da portuguesa Sónia Lopes. As quatro constituíamos o lote de atletas femininas da prova. Os atletas sem handicap partiram todos às 9h.
De início, rolou-se uns 2 ou 3 quilómetros no alcatrão até se sair para um empedrado rural por onde se entrava finalmente na terra, e seria logo uma subida a matar, como tinha referido a Berta no controlo de partida. Logo no empedrado tive a primeira surpresa: o meu GPS desligou-se pela 1ª vez, coisa que tornaria insistentemente a acontecer algumas trinta vezes durante o dia, devido ao fraco suporte que possuía e que acusava a trepidação fazendo com que o aparelho se desligasse.
A subida a matar era mesmo longa e difícil, no fundo eram várias subidas sucessivas, com pouco ou nenhum intervalo entre si. Ainda mantive contacto visual durante algum tempo com as outras raparigas do grupo, mas rapidamente as perdi de vista. Tal situação passou a ser a regra durante todos os restantes dias da prova, o que nem por sombras me incomodava minimamente, antes pelo contrário. Desde o início que decidira que não iria atrás de ninguém (nem estaria em condições de o fazer) e andaria ao meu ritmo, apostada que estava em chegar ao fim.
Por volta das 11h passou por mim, no meio de uma linha de água, o primeiro atleta masculino, nada mais nada menos do que o vencedor do ano passado, o Ricardo Melo, logo seguido de mais 2 ou 3, e depois todos os outros (ou quase todos), foram passando por mim ao longo do dia. Esta também passou a ser a rotina para mim nos dias que se seguiram: cerca das 10h45/11h, dependendo do traçado de início, eu começava a “vê-los passar”! Este foi um dia longo, quente no início e com aguaceiros para o final, chegando a fazer algum frio; dia em que os quilómetros se avolumavam mas o dia parecia não acabar; dia em que as belíssimas e bastante diversas paisagens do nordeste transmontano me surpreenderam pela variedade, e em que vários estradões providenciais a meio ajudaram a percorrer tão longa distância neste primeiro dia em que o desnível foi o maior de toda a competição! Curiosamente, imensos atletas com furos, pneus trilhados e ainda outras avarias, desde o meio até ao fim da etapa. Ainda parei 2 vezes, uma para ajudar o Luís Gomes cuja bomba parecia não encher, e outra para ajudar um holandês, a quem estava prestes a ceder a minha única câmara de ar, mas ele teve pena de mim e achou melhor não ficar com a única que tinha!
A chegada à meta dentro do tempo (cerca das 19h), muito ovacionada pelos controladores e outros atletas (bondade deles…) que já tinham chegado, foi para mim a primeira vitória. Esta foi outra rotina, que de rotina pouco tem (como se pode utilizar a palavra “rotina” para qualificar algo tão único e marcante como a TransPortugal??) que passou a repetir-se: a simpatia e o apreço de todos aqueles que se encontravam na meta e que faziam questão de nos felicitar sempre que algum de nós atingia a meta! Só quem por isto passa pode apreciar o quanto tão simples gesto nos transmite confiança e incentivo! Nunca os metros finais de uma etapa me custaram tanto, visto que os últimos 100 metros eram a subir em empedrado, com 143 km nas pernas, até uma fortificação, do género torre de menagem, de Freixo de Espada à Cinta. Lá estava montada a tenda da organização com alimentação e bebidas para os atletas, até porque começou a chover bastante naquela altura e a tenda foi imprescindível.
Passou-se uma meia hora e chegou o nosso companheiro Hugo Velez, dentro do tempo, cansado mas feliz! Soubemos depois que outros companheiros nossos, e outros, não tinham conseguido chegar dentro do tempo e tinham ficado no último CP.
 
2ª Etapa: Freixo de Espada à Cinta – Alfaiates (111 Km; Desnível acumulado – 2343m; Fecho do Controlo de Chegada – 19h)
 
O 2º dia, de muito calor, começou para mim por volta das 9h20, iniciando-se logo com uma subida terrível, não dando chance a que os músculos aquecessem antes. Para não variar, logo nos primeiros minutos passaram-me a Hillary e a Sónia Lopes. A Carol raramente a chegava a ver, pois ela partia antes de nós. Esta etapa teve troços muito bonitos, tendo também no início uma zona extremamente técnica na zona de Poiares, em que havia um single track, cheio de degraus de xisto (viva a suspensão total!), que serpenteava em torno das encostas, havendo muitas partes em que não era de todo possível seguir montado, e lá em baixo era o abismo! Igualmente bela a aproximação (em estrada) e passagem por Barca de Alva, e a penosa e quase impossível (inútil romper as pernas) subida ao alto de Figueira de Castelo Rodrigo. Até aqui as subidas não tinham perdoado, em nada mostrando que o dia viesse a ser mais fácil que o anterior. Ao entrar na cidadela, junto a uma fonte onde pretendia reabastecer de líquidos, tive uma bela surpresa: estava lá, além da controladora, a minha “assistência”, que embora impossibilitada de me dar assistência (o regulamento não o permite), sempre me deu força e ânimo e sabe bem ver uma cara conhecida de longa data a torcer por nós. A controladora também disse que a partir dali era só deixar a bicicleta rolar sozinha, que não haveria mais subidas. Eu não queria acreditar muito, mas veio a verificar-se mais ou menos isso, embora faltassem ainda muitos quilómetros e o dia me estivesse a custar mais do que o anterior, devido à dificuldade e número de quilómetros da véspera.
Refira-se que ao longo de cada etapa havia sempre 4 ou 5 CPs, onde não era necessário parar, que mais não eram do que um controlo intermédio, na medida em que os GPS registavam tudo, sendo também um ponto em que era sempre agradável ver uma cara da organização. Também passou a ser costume os controladores puxarem por nós e aplaudirem e darem palavras de incentivo. Cheguei à meta por volta das 17h, tendo a meia dúzia de quilómetros finais sido bonita, em alguns single tracks pelo meio de arvoredos baixos e estreitos, com passagem de algumas linhas de água, mas a que eu já não estava a achar muita graça, pois queria era chegar e avançar mais rapidamente nos poucos quilómetros que me separavam da meta!
 
3ª Etapa: Alfaiates – Ladoeiro (110 Km; Desnível acumulado – 2451m; Fecho do Controlo de Chegada – 18h30)
 
Esta foi para mim a etapa mais bonita, em que se atravessava a Serra e Reserva da Malcata, habitat protegido do lince ibérico, que eu não vi, mas tendo a beleza daquela floresta única compensado tudo, mesmo as subidas difíceis, seguidas de descidas de cortar a respiração, para as quais muito tínhamos sido alertados. Fomos igualmente alertados, no briefing diário em que recebíamos as informações com os pontos de água, os troços perigosos e a altimetria da etapa, para o completo isolamento em que iríamos rodar durante os primeiros 50 quilómetros, não havendo qualquer povoação ou ponto de água. Valeu bem a pena. O que teria dispensado bem (será mesmo?!) teria sido, à saída da Malcata para a estrada e logo depois a reentrada na terra, aquela poeira miudinha, tão fininha que se entranhava por todos os poros e levantava uma nuvem que não deixava literalmente ver o caminho. O que vale é que era largo, e claro que levei com o pó porque dezenas me passaram à frente, como de costume! Mas o pior estava para vir: a malfadada serra do Ramiro! Que bela peça teria sido o Ramiro, para dar o nome a uma serra com uma subida de 500m a 20% por onde tínhamos de passar! Ainda houve uns corajosos que por ali treparam, não sei se chegaram ao cimo montados ou não…
Outra dificuldade do dia: a aproximação a Monsanto. Esta era feita numa longa calçada romana extremamente irregular e a subir. Mais um troço de puxa e empurra! Ao reentrar no alcatrão imediatamente antes da entrada no centro histórico, avistei logo ali um posto da GNR, e suspeitando de que a minha água estava quase no fim, entrei e pedi água. E ainda tomei um café a preço da tropa! Voltei a montar e uns metros à frente dei conta que quem vinha atrás de mim era… a Carol! Que lhe teria acontecido para estar atrás de mim? Seguimos um bom bocado juntas, e soube que tinha tido problemas à partida com o seu GPS, e além disso tinha furado na Malcata e perdeu tempo com isso. A Carol foi comigo algum tempo, e só emitia expressões de admiração perante a beleza daquela localidade, as muralhas, a calçada romana (grandes degraus romanos, melhor dizendo!) que foi depois preciso descer para sair dali, e eu com receio de a empatar e ela só dizia que ia muito bem. O que é certo é que descemos aquilo tudo montadas, graças às nossas suspensões integrais! Mais adiante disse à Carol para seguir à frente, e nunca mais a vi! O traçado a seguir não foi nada fácil: passava pela GR22, e durante um bom bocado era só empurrar a bicicleta, pois havia que descer ou subir grandes calhaus! Nos últimos 20/30kms o piso bom e a direito ajudaram a completar a etapa a bom ritmo, tendo chegado à meta cerca das 17h. Infelizmente foi na meta que soube da triste notícia: a Sónia Lopes caíra já no último quarto da etapa e fracturara uma clavícula e pulso, o que a colocava fora da corrida. Foi uma pena, pois com o andamento que levava era uma forte candidata à “liderança” feminina.
 
4ª Etapa: Ladoeiro – Castelo de Vide (108 Km; Desnível acumulado – 2357m; Fecho do Controlo de Chegada – 19h)
 
Este foi o dia do “mergulho”! Um dia que não apresentava dificuldades excessivas. Por esta altura, já estava acostumada a andar sempre sozinha. Na verdade, isso permite gerir melhor o meu esforço, não desperdiçar energias e não me sentir tentada a ir atrás do ritmo de outra pessoa. Evidentemente que o tempo passa muito melhor e mais depressa se seguirmos acompanhados, sempre se conversa um pouco. Segui sempre concentrada mas ao mesmo tempo descontraída, sem pensar que estava sozinha, simplesmente não pensava nisso. Tinha sempre com que me entreter, a observar a paisagem, a escolher algum local para reabastecer, embora eu reduzisse as paragens ao mínimo indispensável. Também por esta altura já todos os atletas se encontravam familiarizados uns com os outros, já começávamos a ser como uma família. Desde o início, mas em especial a partir do 3º/4º dia, sempre me senti muito apoiada e acarinhada pelos outros atletas, cada vez mais me saudavam e puxavam por mim quando passavam, conversávamos sempre um bocadinho, en passant, sempre preocupados se me encontrava bem, etc. Esta é das melhores recordações que levo da TransPortugal, o espírito de camaradagem singular que se viveu nesta prova.
O dia estava a correr muito bem, sentia-me bem fisicamente e parecia finalmente estar a entrar naquele ritmo que já não custa. A uns 20 kms da meta, a seguir a um troço em alcatrão, a subir, que fiz sem esforço, saía-se para um eucaliptal com caminho largo e aparentemente bom, e a descer. Entrei bem e a boa velocidade. Quando dei por isso… estava no chão, sem saber como, no lado oposto onde seguia e onde a bicicleta tinha ficado! Percebi então que o caminho coberto de folhas de eucalipto e ervas, tinha sulcos deixados por rodas de carro ou tractor, onde eu tinha entrado sem me aperceber, tendo a roda da frente resvalado num dos bordos do sulco e tendo eu sido projectada, em jeito de “mergulho” para o lado oposto do caminho. Puxei o braço para o sítio dele, levantei-me, analisei a situação, vi que estava tudo a funcionar, assim como a bicicleta, e segui sem grandes demoras antes que começasse a arrefecer e me começasse a doer mais. Fiz o resto da etapa com algum desconforto mas nada de especial. Soube mais tarde que mais 2 atletas tinham caído no mesmo sítio, sendo um deles o Adriano, que terá então fracturado uma costela mas tal não o impediu de continuar nesse e nos dias que se seguiram! A chegada a Castelo de Vide foi singular, pois era mais uma vez a subir por uma calçada romana onde em muitos sítios não era possível seguir montada. A meta propriamente dita e onde cheguei por volta das 17h30 estava a uma distância considerável da tenda da organização. E lá estava o Cláudio, o nosso precioso elemento de assistência, para me saudar e guiar até à tenda da organização!
 
5ª Etapa: Castelo de Vide – Monsaraz (160 Km; Desnível acumulado – 3236m; Fecho do Controlo de Chegada – 20h30)
 
Se a primeira etapa nos tinha sido apresentada como a mais difícil, esta metia medo a toda a gente, pela enorme distância que tínhamos de percorrer, já com a fadiga acumulada nos outros dias. Era a etapa rainha, por assim dizer. O dia não podia amanhecer pior e menos desfavorável a tamanha distância: estava um autêntico temporal, que já se deixara antever no frio fim de tarde da véspera e na noite marcada por chuva e vento. A minha saída estava marcada para as 7h55, e nessa altura chovia tanto e o vento era tão forte que dava vontade era de ficar na cama! Isso mesmo devem ter pensado vários atletas, que não partiram, ou abdicaram do seu handicap para poderem sair mais tarde, como foi o caso da Carol e depois da Hillary. O Cal não se sentiu bem na véspera, pelo que decidiu saltar a etapa. Fui então a primeira a partir, debaixo daquele temporal, e muito fui aconselhada a ter cuidado na subida de outra calçada romana à saída de C. Vide, e depois na descida também em calçada, pois o piso estava completamente escorregadio. Eu tencionava seguir na íntegra estes conselhos, até porque me encontrava algo “empenada” da queda e porque o vento e a chuva eram tão fortes que quase me empurravam para fora dos trilhos! Por isso segui com imenso cuidado, a pé na subida, e a passo de caracol na descida. Passei a parte pior, e depois durante a manhã o percurso alternava entre subidas e descidas em floresta, sempre com a chuva e o vento por companhia, às vezes abrandava um pouco, mas persistiu praticamente todo o dia. Quando os primeiros atletas começaram a passar por mim, entre as 11h e as 11h30, apercebi-me de que me saudavam com alguma admiração… Pois com certeza viram em mim a mesma força de vontade e espírito de sacrifício que eu via neles, para teimarmos em estar ali e continuar sob aquelas condições.
Esta etapa tinha, para além de todas as restantes dificuldades, a da existência de nada mais nada menos do que 32 portões de herdades para abrir e fechar! Eu no estado em que estava devido à queda tinha grandes dificuldades nessa simples operação, lá ia tendo a sorte de aparecer alguém que me fazia esse obséquio. A determinada altura apareceu um grupo grande, em que rolavam o Jorge Manso, o Ricardo Lanceiro, o Cláudio e muitos outros, e que foram de uma cortesia extrema pois cientes do meu estado já esperavam por mim nalguns portões e deixavam outros abertos para eu passar! Ainda rolei com eles algum tempo, inclusive reabastecemos todos no mesmo café em Sta. Eulália, até que, próximo de Vila Boim a distância entre nós ficou maior e ao entrar na povoação e seguindo as ruas que o track indicava dei com…um funeral! A rua estava tão cheia de gente e só se viam guarda-chuvas, pois chovia imenso, e tive de dar uma volta ao quarteirão para poder passar-lhe à frente e seguir o meu trajecto! A partir dali fui seguindo sozinha. Mas a poucos quilómetros do final travei conhecimento com o António Costa – que estava “encalhado” à espera que alguém passasse porque a bomba dele não funcionava – e com o Nuno Machado e depois apareceu o Adriano, com a história de mais uma queda no início do dia, a descer a calçada romana em C. Vide, tendo as marcas bem visíveis no rosto.
A aproximação a Monsaraz trouxe não só a visão da enorme subida que ainda teria de fazer até ao alto da zona histórica, contornando as muralhas, como também trouxe a boa recordação de uma Corrida de Aventura em que participei em 2004, cujo pórtico de Partida estava exactamente montado na meta desta etapa! E cerca das 20h10, lá estava eu a subir (forçosamente montada pois estava toda a gente a observar-me!) aquilo que em 2004 descera a correr! Subi com gosto, apesar do cansaço e do esforço, pois ter conseguido acabar aquela etapa dentro do tempo, fez-me sentir que a partir dali eu seria capaz de vencer qualquer obstáculo. Soube na meta que a Carol abandonara a etapa no quilómetro 80, juntamente com o nosso amigo Pedro Marques.
 
6ª Etapa: Monsaraz – Albernoa (139 Km; Desnível acumulado – 1798m; Fecho do Controlo de Chegada – 20h)
 
Esta foi a etapa mais plana, de paisagem tipicamente alentejana, mas num constante sobe e desce ligeiro, algo monótono, que vai massacrando, especialmente após tantos dias e tantos quilómetros. O dia esteve ameno, com alguns aguaceiros. Logo no 1º CP, que era num café, tive necessidade de parar devido a uma incomodativa acidez no estômago, e estava a queixar-me disto quando um habitante local que ali estava a observar, tira de um bolso uma embalagem de pastilhas Rennie e estende-me uma! Mas que sorte a minha! O problema desapareceu passado pouco tempo. Neste dia tive também a agradável companhia durante bastantes quilómetros do Pedro Soares e do Jorge Mendes, ambos já anteriores participantes no formato de 11 dias. Em determinado café, tiveram a feliz ideia de parar para beber qualquer coisa (eles disseram uma “mini”, mas não sei…), eu resolvi seguir, mas eles tiveram melhor sorte porque caiu nessa altura uma grande chuvada! A uns 20 kms da meta apareceram logo atrás de mim o Adriano e o Pedro Marques. Dizia o Adriano que o Pedro estava todo satisfeito porque era a primeira vez que me via! Seguimos os três juntos desde ali até à meta, e era curioso que o Pedro, sempre que apanhávamos uma subidita, só repetia com ironia as palavras do A. Malvar no briefing, em que dissera que “não há subidas dignas de nota nesta etapa”! Cruzámos a meta por volta das 18h e fomos logo assediados pelos media! Estavam lá responsáveis por um website de BTT e pediram-nos uma entrevista! Soube também que o Hugo Velez, que tinha ficado com um tendão de Aquiles em mau estado na véspera e tinha dito que não iria partir hoje, à última da hora ficou cheio de vontade e partiu na mesma! O espírito da TransPortugal faz-nos cometer estas loucuras!
 
7ª Etapa: Albernoa – Caldas de Monchique (134 Km; Desnível acumulado – 2552m; Fecho do Controlo de Chegada – 20h)
 
Esta etapa iniciou-se com um caminho por entre vinhas durante alguns quilómetros, em que apanhámos também algum barro lamacento, mas felizmente foi durante pouco tempo. Nesta etapa iríamos entrar na serra algarvia, que não é fácil, e iríamos ter nada mais nada menos que a pior subida de toda a TransPortugal, uma longa subida a 25% com pedras e troncos de eucalipto pelo meio, já na parte final da etapa. Mais ou menos perto do quilómetro 70, já as subidas tinham começado, aparece o António Costa, muito desgostoso com o estado dos seus joelhos, pois estava cheio de dores. A partir dali fomos sempre juntos, pois os joelhos dele não lhe permitiam andar mais depressa. Foi uma excelente companhia e uma grande ajuda, sem ele não sei se teria conseguido chegar ao fim desta etapa dentro do tempo, a qual se revelou muito mais difícil do que seria imaginável. Na tal subida a 25%, muito me incentivou e foi puxando por mim, em especial depois de se sair da terra e entrarmos no alcatrão, que continuava sempre a subir até muito perto das Caldas de Monchique. Ainda tivemos o incentivo extra de alguns amigos meus que tinham vindo de Lisboa, e do nosso “assistente”, e estavam parados à espera só para nos dar força! As subidas pareciam não mais acabar, as pernas já não queriam mexer, “cadê” a energia?? Mas lá fomos andando os dois, lutando metro a metro, ansiando que os quilómetros baixassem, o que parecia não acontecer. Ainda por cima estava a ficar frio e nevoeiro. Por fim, acabou a subida e a chegada à zona termal era por um trilho a descer com alguns troços tipo calçada de pedra, e finalmente chegámos à meta às 19h40! Que dia difícil. Na TransPortugal não há dias fáceis!
 
8ª Etapa: Caldas de Monchique – Sagres (95 Km; Desnível acumulado – 1925m; Fecho do Controlo de Chegada – 17h)
 
Eis-nos chegados à derradeira etapa desta aventura. Logo para começar, uma subida impressionante para sair das Caldas de Monchique, onde desmontei logo pois sem aquecimento nem valia a pena arriscar. Depois foi um sobe e desce, ainda com bastante “sobe” durante toda a serra do Espinhaço de Cão, até chegarmos mais próximos da faixa costeira e onde já se sentia o cheiro do mar. Estava ansiosa por avistar o mar, e quando cheguei à zona da Carrapateira, nem queria acreditar que eram dunas e não serras que tinha à minha frente, e o céu já reflectia o azul do mar. Tivemos depois a recompensa de andar alguns quilómetros quase sempre à beira-mar, e tínhamos sido avisados que iria haver single tracks bastante técnicos e perigosos nas próprias falésias, onde todo o cuidado era pouco. Assim foi, e na grande maioria fi-los a pé, mas o panorama compensava tudo. Desiluda-se quem pense que não houve mais subidas, pois ainda houve muitas e bem duras, embora curtas. Não via a hora de chegar a Sagres. Quando me comecei a aproximar, senti-me inundada por um sentimento que não era de alívio, mas sim de enorme satisfação! E quando finalmente cheguei à beira da falésia e o caminho me indicava a praia do Amado onde seria a meta, em pleno areal, e comecei a ouvir toda a gente a gritar lá em baixo, esse sentimento de satisfação transformou-se em felicidade pura! Cheguei à meta por entre aplausos, e mandaram-me logo ir para a areia porque parece que estavam todos à minha espera para tirar fotos, embora ainda faltassem outros participantes. Tirámos várias, e depois foi o mergulho obrigatório, com as roupas de ciclismo ainda vestidas, nas águas do Atlântico, um mergulho transformado em autêntica festa e que soube que nem ginjas após o esforço, para coroar o grande feito. Depois, sucessivamente, uns de livre vontade, outros levados em braços, foi toda a gente ao banho, desde todo o staff até ao próprio “patrão” do evento, o António! Que grande festa!
 
Nessa noite houve jantar de encerramento, com entrega de prémios, tendo o grande vencedor da prova sido o belga Peter Paelink, seguido do nosso João Marinho, e depois o também belga Dominiek Sacre. A primeira concorrente feminina, em 10º lugar, foi a americana Hillary Harrison.
 
Não percam a oportunidade de um dia realizarem o vosso sonho; um sonho de 1000 km de BTT em território português, uma das mais duras e únicas provas por etapas da Europa – a TransPortugal GARMIN!
 
NOTA: Durante os 1000km da SuperTravessia GARMIN a minha bicicleta não registou um único furo, pelo menos visível, ou qualquer avaria mecânica. Cuidem das vossas "burras", pois elas agradecem e retribuem em tempo que se ganha!

One response

  1. Jose Angel

    hola, soy valenciano y aunque no lo he entendido todo, me hago una idea general del merito que te mereces, es una pasada.a mi me gustaria hacerla pero sin la presion de una carrera, sabes donde puedo conseguir los track?

    24/10/2009 às 16:16

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