"Mais do que ser primeiro, herói é quem sabe dar-se inteiro e dentro de si mesmo ir mais além."

CAMINHO VIA DE LA PLATA A SANTIAGO DE COMPOSTELA 2006

"Uma viagem de mil quilómetros inicia-se com um primeiro passo.”

(Provérbio chinês)

 

É caso para dizer que uma viagem de bicicleta de 1066 kms, começa com um par de pedaladas. Assim foi, e as pedaladas foram-se somando, dia após dia…

 

A ideia de percorrer o Caminho Vía de la Plata em bicicleta nasceu por acaso, no rescaldo do Caminho Francês, que para dois de nós foi a primeira peregrinação em bicicleta a Santiago de Compostela. A Vía de la Plata percorre em grande parte a principal "auto-estrada" da Península Ibérica, a calçada romana conhecida como "Ruta de la Plata", que ligava Mérida a Gijón. Entre os três decidimos iniciar a Via em Sevilha e depois fazer a ligação com o Caminho de Santiago. Essa ligação pode ser feita por um lado unindo com o Caminho Francês em Astorga, ou por outro lado seguindo pela chamada Variante de Sanabria, também conhecida como Caminho do Sudeste. Optámos por este último, pois já conhecíamos o Caminho Francês. Se neste tínhamos percorrido 840 kms em autonomia, desta vez não nos contentaríamos com menos de 1000 kms, igualmente em autonomia!

 

Seguiram-se alguns meses de intensas pesquisas na Internet e da compilação da informação encontrada, com o intuito de obtermos listagens de alojamentos, lojas de bicicletas ao longo do Caminho, altimetria e um road-book que pudéssemos seguir em caso de sinalização deficiente. Foi notória, desde o primeiro momento, a diferença relativamente ao Caminho Francês: tudo o que encontrávamos sobre a Via de la Plata apontava para uma escassez de peregrinos ao longo do trajecto, bem como para a escassez de albergues e de sinalização. De igual modo, também tudo apontava para a relativa acessibilidade em termos altimétricos e de transitabilidade dos caminhos, que tudo indicava muito consistirem em estradões. Posteriormente, no terreno, viemos a constatar que uma boa parte dessas suposições não passava disso mesmo e que as informações que tínhamos encontrado e dado como certas eram algo ilusórias… A título de exemplo, é como pensarmos que o Alentejo é plano!

 

Definimos as etapas com base nos critérios da altimetria e da oferta de alojamentos disponíveis. Tínhamos acordado entre nós que procuraríamos ficar sempre que possível alojados em albergues de peregrinos e só em último caso iríamos para pensões ou hostales. Os problemas a nível de alojamento começaram logo à chegada. Rapidamente constatámos que havíamos escolhido o pior dia do ano para chegar a Sevilha: dia da Feira de Abril, dia de jogo importante do Betis e dia de tourada! A cidade estava ao rubro, os alojamentos cheios e os preços incrivelmente inflacionados! Foi a muito custo que encaixámos a ideia de ter de ficar num hotel de 3 estrelas pago a peso de ouro para não ficarmos na rua, embora essa ideia nos tenha ocorrido… Passada a (curta) noite, iniciámos finalmente a nossa peregrinação, que seguiu o esquema de etapas que a seguir descrevemos.

 

1ª Etapa: Sevilha – Monesterio (128 Km)

 

Se a chegada a Sevilha foi complicada, a saída não o foi em menor grau. Foi difícil encontrar a saída certa da cidade, mesmo com as indicações colhidas na Catedral onde fomos carimbar as Credenciais, e mesmo perguntando a alguns atletas madrugadores que encontrámos. Embora soubéssemos a direcção a tomar, o objectivo era encontrar o Caminho e não a estrada asfaltada. Após cerca de uma hora até sair dos arrabaldes da cidade lá encontrámos, para nossa satisfação, a primeira seta amarela, que afinal era mesmo em estrada asfaltada. A etapa desenrolou-se sem dificuldades de maior, em caminhos acessíveis e alguns estradões, por entre uma paisagem semelhante à dos montes alentejanos, muito povoada por belos exemplares do apelativo porco preto ibérico. De assinalar as temperaturas elevadas que se fizeram sentir neste último dia de Abril, características da Andaluzia, e os tons coloridos e odores primaveris que dominavam a paisagem.
 

2ª Etapa: Monesterio – Merida (125 Km)

 

Após uma noite mal dormida, acantonados em solo duro no único e exíguo refúgio de peregrinos de Monesterio, cedido pela Cruz Vermelha e com taxa de ocupação de 200%, arrancámos para uma etapa em que o tipo de sinalização nos fez perder imenso tempo e andar quilómetros a mais. Embora soubéssemos que o “Caminho Via de la Plata” e a “Ruta de la Plata” são coisas distintas, não nos tínhamos ainda apercebido de que podiam tomar rumos divergentes, sendo a Ruta de la Plata um itinerário marcadamente arqueológico, e o Caminho Via de la Plata aquele que conduz a Santiago, marcado por setas amarelas, devendo o peregrino privilegiar estas em detrimento dos marcos ou placards da rota arqueológica. Tais enganos forçaram-nos a seguir por asfalto nalguns troços pois já nos tínhamos desviado demasiado das setas amarelas. À chegada a Mérida, onde vislumbrámos pela 1ª e única vez um grupo de ciclistas (que não tornámos a ver), alojámo-nos num albergue com óptimas condições mas novamente cheio, onde fomos obrigados a ficar em solo duro, mas onde pudemos finalmente lavar a roupa das duas etapas já cumpridas!

 

3ª Etapa: Mérida – Cañaveral (125 Km)

 

A saída de Mérida foi mais uma vez conturbada, devido à falta de sinalização ou à pouca visibilidade da mesma, mas achámos finalmente o caminho certo. De assinalar, numa etapa mais uma vez marcada pelo calor intenso, a passagem pela bonita cidade de Cáceres, a travessia do rio Tejo logo após Casar de Cáceres, seguida de trilhos fantásticos com descidas alucinantes, estreitas e bastante técnicas, dominadas por pedra que só as suspensões integrais de alguns de nós suavizavam, a desmentir a ideia inicial dos estradões. Era suposto acabarmos a etapa em Grimaldo, mas devido ao adiantado da hora e os problemas em conseguir lugar nos albergues, decidimos ver se haveria ali lugar no refúgio local. Não só havia, como éramos os únicos ocupantes, o que nos permitiu ter cama com colchão e quartos só para nós!
 

4ª Etapa: Cañaveral – Fuenterroble de Salvatierra (135 Km)

 

Nesta etapa tivemos de recuperar os 11 quilómetros que tínhamos deixado por fazer na véspera. Por volta da hora do almoço o tempo começou a ameaçar chuva, a qual começou a cair mais intensamente a meio da tarde, à passagem pela vila termal de Baños de Montemayor. Seguia-se uma serra que tivemos de subir tendo a chuva por companhia, tornando-se assim o resto do dia bastante mais difícil. Sempre que entrávamos em trilhos o ritmo abrandava consideravelmente devido ao terreno alagado. Destaque para uma bela e longa descida em calçada romana reparada, o que permitiu alcançar velocidades consideráveis. A jornada terminou com a noite quase à porta e debaixo de chuva, pelo que a chegada ao único mas acolhedor albergue da modesta povoação, foi uma autêntica bênção para os nossos corpos gelados.

 

5ª Etapa: Fuenterroble de Salvatierra – Zamora (121 Km)

 

Após uma noite embalada pelo som da chuva a cair, erguemo-nos sem que a mesma tivesse parado, com a agravante dos terrenos estarem agora ainda mais alagados. Mesmo assim, enchemo-nos de energia (que não vinha do pequeno-almoço) e seguimos viagem, encontrando pelo Caminho muitos peregrinos pedestres que há muito haviam partido, cheios de coragem e determinação perante a adversidade. A meio da manhã, num café onde tivemos de parar para nos alimentarmos e aquecermos, tivemos de tomar uma decisão: teríamos de seguir viagem por asfalto o resto do dia, isto se queríamos chegar a Zamora como previsto e onde era suposto o nosso 4º companheiro juntar-se a nós. Passaríamos também, com muita pena, ao lado de Salamanca sem podermos visitá-la. A seguir ao almoço o tempo melhorou até que a chuva desapareceu por completo. Em Zamora ficámos esplendidamente alojados num Albergue da Juventude.

 

6ª Etapa: Zamora – Rionegro del Puente (117 Km)

 

Após o excelente pequeno-almoço servido no albergue, seguimos caminho e continuávamos a ser três, pois o amigo Roque não tinha conseguido viagem. Passagem neste dia por Granja de Moreruela, onde o Caminho bifurca: via Astorga ou via Sanabria. Em Rionegro del Puente, fomos, juntamente com um outro caminheiro, os estreantes de um albergue de peregrinos acabadinho de abrir e com excelentes condições.

 

7ª Etapa: Rionegro del Puente – A Gudiña (101 Km)

 

Dia que amanheceu muito frio, fazendo lembrar o clima de Trás-os-Montes, ali tão perto. Contávamos chegar a Puebla de Sanabria à hora do almoço, onde finalmente o nosso amigo se juntaria a nós. A sintonia foi perfeita: enquanto tirávamos fotografias junto ao castelo de Sanabria, eis que chega o Roque, montado na sua bike e já a suar bastante após pedalar os cerca de 40 quilómetros que separam Bragança daquela bela localidade. Festejámos com emoção a sua chegada, após o que seguimos viagem todos juntos até ao destino daquele dia, a povoação galega de A Gudiña, onde tivemos que esperar que chamassem o “hospitalero” do albergue local. Constatámos que ficava muito zangado se os peregrinos entrassem sem o chamarem. Como seguimos o protocolo, tivemos um tratamento VIP!

 

8ª Etapa: A Gudiña – Cea (124 Km)

 

Mais uma manhã fria, a tal ponto que ansiávamos por subidas para aquecer! A paisagem era magnífica àquela altitude, nos vales serpenteavam cursos de água que aqui e ali tinham sido aproveitados para formar “embalses”. Lançámo-nos de seguida em longas descidas, umas em terra, outras em estradas estreitas, literalmente de cortar a respiração devido ao frio que se fazia sentir. O almoço foi tomado no bar mais pitoresco que encontrámos no Caminho, o “Rincón del Peregrino” na quase perdida aldeia de Sta. Maria de Albergueria. A tasca era completamente forrada de vieiras assinadas por todos os peregrinos que por ali passavam! Também nós lá deixámos o nosso testemunho. Passagem ainda nesse dia por Ourense, onde o encarregado do albergue local nos disse que faltavam apenas 15 quilómetros para o próximo albergue, sendo os primeiros 2 quilómetros uma subida a 30% e os restantes sempre planos. A boa notícia é que a subida não se aproximava sequer dos 30%; a má notícia é que também não eram 2 quilómetros a subir, mas todos os que faltavam até San Cristovo de Cea!

 

9ª Etapa: Cea – Santiago (90 Km)

 

Após uma noite bem dormida no quentíssimo albergue local, iniciámos bem cedo a derradeira etapa, em que a primeira paragem foi na belíssima localidade de Oseira para tomar o pequeno-almoço mais caro de todo o Caminho! Manhã em que levámos mais de 4 horas para percorrer 12 quilómetros, devido à intransitabilidade do caminho, autênticos carreiros de cabras, mas onde espantosamente as vacas aqui e ali iam conseguindo andar, ao contrário de nós! Santiago aproximava-se, e com ela o fim da nossa aventura… Chegados cerca das 17h30 e tiradas as fotografias alusivas ao feito, encaminhámo-nos para a Oficina do Peregrino para levantarmos o certificado da nossa peregrinação – a Compostela. Ainda houve tempo para uma rápida mas muito significativa ida ao interior da Catedral, sem a qual a viagem para alguns de nós não teria tido a mesma importância.

 

Mais uma aventura se passou entre amigos, entre adversidades e amizade, tristezas e alegrias, mas sempre com um objectivo comum em mente, o do desafio e o do espírito de sacrifício de cada um. "HASTA LA PROXIMA!"

(Artur Batista, Filomena Gomes, Escada da Costa e Pedro Roque)

 

AGRADECIMENTO: Gostaríamos de agradecer com toda a sinceridade e amizade ao Alexandre Cunha bem como à sua família, que fizeram o sacrifício pessoal e familiar de nos conduzir a Sevilha e de Santiago a Lisboa. Sem eles esta aventura não teria sido possível. Bem hajam!

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